Arquivo para janeiro 22, 2011

Livro – “O olhar da mente” de Oliver Sacks

Posted in Ciência, Livros, Pense nisso with tags , , on janeiro 22, 2011 by pattindica

Um escritor que perde a capacidade de ler. Uma pianista que confunde um guarda-chuva com uma cobra. Indivíduos que só enxergam imagens bidimensionais ou não reconhecem rostos. Nos casos relatados em O olhar da mente, do neurologista inglês Oliver Sacks, a ciência é sempre vista a partir da experiência humana. Nesse percurso se mesclam, de forma ao mesmo tempo rigorosa e afetiva, informações técnicas sobre distúrbios da memória, da fala e de outras funções cerebrais e a narrativa de suas consequências no dia a dia de pacientes e familiares. O que torna essas histórias tão saborosas, a despeito de sua inevitável dramaticidade – ou comicidade, em alguns momentos -, é o talento do autor para tratar de assuntos complexos em prosa lógica e cristalina. Também a erudição discreta de seus argumentos, capazes de incorporar em discussões sobre fisiologia cerebral um poema de John Milton, um quarteto de Haydn, considerações sobre a fotografia estereoscópica, a teoria da linguagem de Noam Chomsky. “Aprendi a olhar para o sofrimento em termos humanos mais amplos”, disse Sacks numa entrevista, referindo-se ao resultado de seu convívio, ainda estudante de medicina, com poetas como W. H. Auden. “A olhar para dilemas, situações – não apenas para doenças.” Aos poucos, os casos de O olhar da mente – quase todos concentrados em problemas de visão – ganham certa familiaridade e convergem para aquele que parece ser o seu grande mote: o câncer que o próprio Sacks teve num dos olhos, e que o faz sair da condição de médico para enfrentar a angústia, a insegurança e os medos comuns de um paciente. “Este é o Natal mais desolador que já passei”, escreve. “O New York Times de hoje traz fotos e histórias de várias personalidades que morreram em 2005. Estarei nessa lista em 2006?” Nesse mergulho pessoal corajoso, que não abre mão da crueza e da autoironia, análise e experiência se fundem para traçar contornos originais do antigo – e ainda hoje complexo – dilema entre mente e cérebro. Até que ponto somos os autores, os criadores das nossas sensações? Quanto elas são predeterminadas pelo cérebro ou pelos sentidos com que nascemos, e em que medida moldamos nosso cérebro através do que vivenciamos?

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Cinema – “A árvore” (The Tree) de Julie Bertucelli

Posted in Cinema, Vídeos with tags , , on janeiro 22, 2011 by pattindica

Logo nas primeiras seqüências do filme “a árvore”, de Julie Bertucelli, é possível perceber o grau de realismo fantástico que nos espera. Uma grande casa é levada em uma carreta estrada a fora pelo deserto da Austrália. A cena é no mínimo estranha, pelo menos para quem não está acostumado a ver alguém mudar e levar a própria casa. O trajeto árido e o balançar da casa em movimento propõem uma fotografia melancólica e a promessa de que a casa também será uma personagem importante na história.

a atmosfera fantástica do filme não fica por aí, a partir da morte repentina do pai, Peter (aden Young), sua família não encontra o caminho para voltar à rotina e, guiados pela filha caçula, Simone (Morgana Davies), eles estabelecem uma relação místico-fantasiosa com uma grande figueira. Acontecimentos misteriosos relacionados à grande árvore, que parece sempre a espreita dos acontecimentos da família, reforçam a crença de Simone de que o pai morto agora é a árvore.

a ausência provocada pela morte e a dor silenciosa que Dawn (Charlotte Gainsbourg) e seus quatro filhos sentem são compartilhados pelos ruídos que o vento provoca na árvore que, austera, se impõe à retomada da vida daquela família.

Julie Bertucelli, sempre lembrada por ter sido assistente de Kieslovski, mostra com mais um trabalho interessante que, apesar da influência do grande mestre polonês, seus filmes trazem algo seu. A morte e suas conseqüências na vida de quem fica sempre foram temas muito caros ao diretor Kieslovski, assim como suas pausas são lembranças que Bertucelli nos traz de um diretor que nos dava um cinema em que se era permitido respirar.

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